O que é o Cepticismo?

Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, uma possível definição de cepticismo, e a que melhor se aplica ao âmbito da COMCEPT, é:

Dúvida provisória ou metódica, que, num primeiro momento, visa a busca da objetividade; recusa em aceitar algo sem um exame crítico.

Indo ao encontro desta definição, a Rational Wiki define o cepticismo é a arte de questionar e duvidar de afirmações e reivindicações extraordinárias, tendo como alicerce fundamental a evidência científica acumulada. O cepticismo na verdade faz parte do método científico, que requer a infatigável experimentação e revisão de factos e teorias.

Como dizia o grande cientista, comunicador e céptico Carl Sagan (1934-1996),

Afirmações extraordinárias exigem provas extraordinárias.

Exemplos

Se alguém disser que almoçou bacalhau com natas, pode estar a falar a verdade ou pode estar a mentir. No entanto: essa alegação não é nada de extraordinário, comer bacalhau com natas é um acto perfeitamente banal; e o facto de se comer ou não bacalhau com natas não terá muita influência na vida de terceiros.

Agora, se nos for dito que para curar qualquer enxaqueca, basta saltar ao pé-coxinho numa noite de Lua cheia enquanto se esfrega um gato preto na cabeça, esta é uma alegação que merece maior cuidado e avaliação antes de ser aceite como verdade. Para começar, não há nenhum motivo, à luz dos conhecimentos de como funciona o mundo e o corpo humano, para acreditar que tal terapia possa ser eficaz a curar enxaquecas; adicionalmente, pode ser uma actividade bastante dolorosa, especialmente, se o gato tiver as unhas afiadas.

Resumindo

A atitude do céptico é a de questionar o mundo que o rodeia, procurando provas científicas e racionais antes de aceitar alegações extraordinárias como verdade e, esforçar-se por encontrar explicações alternativas simples e naturais para fenómenos que à partida, com uma análise superficial, parecem ser de origem sobrenatural. A ciência está na base do movimento céptico e o cepticismo é uma parte fulcral desta, caso contrário não haveria forma de eliminar ideias erradas.

Para saber mais sobre os vários tipos de cepticismo pode consultar também a entrada do termo no The Skeptic’s Dictionary (em inglês). Sobre a problemática de definir o que é cepticismo aconselhamos um texto de Ludwig Krippahl no blog Que Treta!

Para uma versão condensada e distribuível sobre o que é, mas sobretudo, o que não é o cepticismo, aconselhamos o download e leitura do guia “O que é o Cepticismo?”, também disponível na nossa página de recursos.

Por que o cepticismo é importante?

O cepticismo e o pensamento crítico são sempre importantes para alguém que se preocupe em saber a verdade, isto é, a verdade tal como é entendida na ciência –  a melhor verdade que é possível tendo em conta o conhecimento existente e que, por definição, é sempre provisória e aberta à mudança. Um céptico não se deve ficar pelo que soa intuitivamente bem ou pelo que gostava que fosse verdade. Mas o cepticismo e o pensamento crítico são especialmente importantes sempre que temos de tomar decisões em que alegações falsas podem ser prejudiciais. Mitos e alegações não comprovadas podem influenciar negativamente a escolha de tratamentos médicos, o investimento do nosso dinheiro e até o nosso impacto na natureza. O cepticismo funciona como um crivo que permite separar o trigo do joio.

O que o cepticismo não é?

  • Ter a mente fechada: Todos os cépticos já foram um dia crédulos e tiveram pelo menos abertura para a possibilidade de que algumas das crenças que mantinham poderiam estar erradas. É importante ter a mente aberta a novas ideias, mas não tão aberta que “o cérebro caia no chão”.
  • Não acreditar em nada: Os cépticos acreditam em várias coisas, são apenas mais rigorosos na quantidade e, sobretudo, na qualidade das provas que exigem para acreditar, especialmente se a alegação estiver em contradição com o melhor conhecimento científico disponível, o que aumenta a probabilidade de estar errada.
  • Negacionismo: Existem pessoas que põem em causa factos bem estabelecidos da história e da ciência como o holocausto, a teoria da evolução, o aquecimento global, os benefícios da vacinação ou o VIH como o causador da SIDA. Estas pessoas não estão a praticar o cepticismo, estão a negar/ignorar de forma sistemática um vasto conjunto de provas, muitas vezes por motivos ideológicos, como forma de manter uma conclusão pré-estabelecida. Recorrem muitas vezes a teorias da conspiração para porem em causa as provas existentes.
  • Teorias da conspiração: Os teóricos da conspiração fazem precisamente o contrário daquilo que o cepticismo deve ser. Se por um lado são extremamente cépticos de tudo aquilo que contradiga a teoria em que acreditam, arranjando sempre uma desculpa para descartar essas provas, por outro, são de uma ingenuidade extrema a aceitar tudo aquilo que eles percepcionam como suporte ao seu ponto de vista, mesmo que seja implausível ou sem ligação. É claro que existem e já existiram várias conspirações, mas isso não significa que todas as teorias da conspiração que ouvimos e lemos se venham a tornar realidade. É preciso traçar uma linha entre o cepticismo saudável e a paranóia irracional.

Por que é tão difícil ser céptico?

O cepticismo e pensamento crítico não são características inatas, têm de ser aprendidas e treinadas. Até mesmo os cépticos sentem por vezes dificuldade em aplicar o cepticismo a todos os aspectos da sua vida. O ser humano parece ter sido moldado pela selecção natural para ser especialmente crédulo e é fácil pensar no porquê – imagine que é um dos nossos antepassados a viver na savana africana e ouve um ruído no meio das ervas, se assumir que é um predador quando é apenas o vento, então não acontece nada de mal, apanha um susto desnecessário e segue por outro caminho; no entanto, se assumir que é o vento quando é na verdade um predador, este será o último erro que comete. O problema é que já não vivemos na savana africana e ser crédulo no mundo moderno pode ser muito mais prejudicial do que ser céptico.

Adicionalmente, a maioria das pessoas sobrestima as reais limitações das suas capacidades biológicas. Todos nós achamos graça a ilusões de óptica que muitas vezes circulam pela Internet, mas muitos falham em compreender a valiosa lição que estas nos ensinam – bastam umas linhas desenhadas de determinada forma para que o nosso cérebro já não consiga interpretar correctamente essa informação. Os nossos sentidos são extremamente falíveis, o nosso raciocínio pode ter falhas, temos preconceitos que alteram a nossa percepção e até as nossas memórias podem ser adulteradas. A relutância em aceitar a nossa imperfeição, muitas vezes devido a questões de auto-estima e/ou ligações emocionais, é um dos principais obstáculos à eliminação de crenças erradas.

Exemplo

Quando as pessoas vão a um astrólogo ou cartomante, têm tendência a esquecer aquilo em que o adivinho errou e a lembrar-se apenas daquilo em que ele acertou. Muitas vezes aquilo que é dito é tão geral que na realidade até mesmo aquilo em que ele acertou poderia aplicar-se a qualquer um, no entanto, as pessoas tem sempre tendência para achar que leitura é feita à sua medida – o chamado efeito de Forer. Um conselho? Da próxima vez que for a uma consulta forneça uma data de nascimento errada e veja se a leitura não soa igualmente bem.

Por que é que dão tanta importância à ciência?

Esta está longe de ser uma escolha arbitrária e tem a sua razão de ser. O método científico é uma forma de obter conhecimento com um conjunto de metodologias projectado para reduzir as probabilidades de se chegar a uma conclusão errada. A ciência não é perfeita, o conhecimento científico é sempre provisório, um processo gradual de acumulação de conhecimentos que está sempre aberto à mudança, mas que é ainda assim a melhor e a mais revolucionária forma de pensar inventada até hoje. A abertura à mudança e o processo contínuo de correcção de erros são o principal trunfo da ciência. E é uma forma de pensar que funciona, já que estamos rodeados de vários produtos tecnológicos que são o fruto de várias descobertas científicas e dessa tal forma de pensar. 

Quais as reacções mais comuns?

Há quem nos considere sabichões, arrogantes e “estraga-festas”, especialmente quando colocamos em causa uma crença que é querida dessas pessoas e na qual investiram bastante tempo, chegando até, por vezes, a fazer dela a sua própria profissão. Esta é uma reacção que é apenas normal, uma vez que estão demasiado comprometidas com essa crença para sequer considerarem a possibilidade de que podem estar erradas. Quando levantamos essa possibilidade assumem de imediato que estamos a colocar a sua honestidade ou inteligência em causa quando não se trata disso. Aliás, as pessoas mais inteligentes são as piores, pois são muito boas a arranjar desculpas para coisas em que acreditam por razões que não têm nada a ver com inteligência.

A nossa principal mensagem é uma de humildade – os nossos sentidos são extremamente falíveis e as nossas interpretações desses sentidos são facilmente influenciáveis – todos nós podemos ser enganados, mesmo os mais inteligentes e até mesmo os cépticos, face a isso, há que ter abertura para mudar de opinião quando nos mostram provas que contradizem aquilo que até então julgávamos ser verdade.

Nós não queremos obrigar ninguém a deixar de acreditar naquilo em que acreditam, nós simplesmente colocamos à disposição do público aquela que consideramos ser a melhor informação disponível, assim como as ferramentas para que eles próprios separem o trigo do joio. Aproveita quem quiser.

Como avaliar as alegações?

Uma das melhores ferramentas para um céptico foi sugerida por Carl Sagan no seu livro “Um Mundo Infestado de Demónios” e resume-se num “Kit de Detecção de Tretas”:

  1. Sempre que possível, deve haver uma confirmação independente dos factos.
  2. Deve-se encorajar um debate substancial sobre as provas pelos conhecedores e proponentes dos vários pontos de vista.
  3. Argumentos com apelo à autoridade têm pouco peso (em ciência, não existem “autoridades”).
  4. Pese várias hipóteses – não se agarre simplesmente à primeira ideia que lhe agrada.
  5. Tente não ficar demasiado agarrado a uma hipótese, só porque é a sua.
  6. Sempre que possível, quantifique.
  7. Se existe uma corrente de argumentação, todos os elos dessa corrente devem ser válidos.
  8. Use a navalha de Occam: se existem duas hipóteses que aparentemente explicam os dados, escolha a mais simples.
  9. Pergunte-se se a hipótese pode, pelo menos em princípio, ser falsificável (que se possa mostrar que é falsa com um teste inequívoco). Noutras palavras: é testável? É possível que outras pessoas possam duplicar a experiência e obter o mesmo resultado?
Anúncios